KIDIDS
André Czarnobai, mais conhecido como Cardoso (não confundir com o @Cardoso), responde também pela alcunha de Kidids; criou o Cardosonline (ouça o áudio documentário aqui), escreveu o livro “Cavernas & Concubinas” (DBA) e já teve textos publicados na Piauí, no site da Revista Trip, Zero Hora e Brasil Econômico. Kidids fala sobre jornalismo, imersão, ficção, quadrinhos e o fim da era Capslock.

O jornalismo nos dias de hoje esta mais preocupado com o comportamento das pessoas diante de algum fato que as afeta (aumento de salário = maior poder de compra para uma família, por exemplo) ou apenas por ter exposição na mídia (reality shows) ou seja, a visão superficial dos fatos é uma regra. Qual sua opinião sobre essa tendência na profissão?
Não acho que a visão superficial dos fatos seja a regra, mas sim uma “humanização” dos fatos - o que considero um grande acerto. Por mais que seja um recurso do qual se abusou nos últimos anos, acho que funciona muito bem traduzir os números em fatos. É muito mais compreensível ver o depoimento do tiozinho que teve que fechar a empresa familiar por causa da entrada de produtos orientais extremamente mais baratos no mercado do que simplesmente dizer que a indústria nacional recuou tanto por cento por causa do crescimento de tanto por cento da economia chinesa. Não considero que isso seja uma versão superficial, é apenas uma versão mais acessível. Eu, por exemplo, peno muito pra entender o que significa, na prática, a derrocada do Euro ou o rebaixamento das notas de países nessas misteriosas agências de classificação, que usam critérios ainda mais misteriosos pra definir coisas que praticamente ninguém entende em sua totalidade. Imagina então uma pessoa que não passou pelo sistema educacional - ou pior, que passou pelo sistema educacional brasileiro depois dos anos 90? De qualquer forma, talvez essa “mundanização” da informação soe, em alguma medida, como uma banalização, mas ainda acho que esse não é o ponto central. Pra mim, o importante é que mais pessoas tenham acesso à informação e sejam capazes de interpretá-la, e vejo esse esforço com muito bons olhos. Todavia, infelizmente, não é o que acontece. As pessoas não são capazes de entender o que acontece às suas voltas. Raríssimas pessoas são capazes de manifestar um pensamento crítico, mesmo que seja totalmente equivocado. Estamos vivendo um momento esquisito, em que é mais importante replicar do que refletir. Pra mim é aí que mora o problema. O cara acha sensacional o Brasil ter tanta gente com acesso ao ensino superior, mas jamais para pra se perguntar qual é a qualidade desse ensino - e, consequentemente, qual será a qualidade dos profissionais formados nessas instituições. Isso é um pensamento muito atrasado, mas se tu abre a boca pra falar algo contra acaba correndo o risco de ser apedrejado em praça pública. Aliás, as dicussões no Brasil se polarizaram de uma forma muito bizarra nos últimos tempos. É um maniqueísmo rasteiro, bobo, que não leva a lugar algum - e isso sim é um grande problema.
George Plimpton escreveu “Paper Lion”, sobre suas experiências jogando futebol americano na liga profissional pelo Detroit Lions. Se pudesse, faria um trabalho jornalístico nos mesmos moldes? E sobre qual assunto gostaria de praticar uma imersão maior?
Sim, faria muito. E gostaria de praticar uma imersão maior em muitos e muitos universos. Alguns anos atrás uma grande editora me convidou para escrever um livro justamente nessa pegada. Eles sugeriram que eu mergulhasse no universo dos taxistas em uma grande cidade como o Rio ou São Paulo, mas confesso que o tema não me atraiu. Propus fazer uma grande investigação sobre os frequentadores dos clubes de tiro - teoricamente, os únicos civis que tem direito ao porte de armas no Brasil -, mas aí quem não gostou muito da ideia foram eles e as coisas não foram mais pra frente.
Cite três livros de jornalismo literário que recomenda. Faça um comentário sobre cada um.
“Queda Livre”, de Otavio Frias Filho: talvez o mais próximo de jornalismo gonzo que um brasileiro tenha chegado com sucesso; “The New Journalism”, do Tom Wolfe: está tudo ali, principalmente as críticas, ilusões, limitações e defeitos mais pertinentes do gênero; “A Luta”, de Norman Mailer: maior prova de que um bom texto pode deixar interessante até mesmo uma luta de boxe.
A HQ “Supercomunistapracaralho” em parceria com Allan Sieber será lançada esse ano ou ainda está em produção? E como se deu a parceria?
Rapaz, eu e o Allan nos conhecemos há muito tempo, e muito antes de toda essa mania de escritores e quadrinistas firmarem parcerias pra produzir histórias conjuntas nós já falávamos sobre o SCPC. Na real, a ideia surgiu em 2003. Eu trabalhava na redação de um site noticioso e os caras me proibiram de ter um blog. Então eu passei 30 dias escrevendo uma narrativa ficcional no Orkut - que viagem. Criei uma comunidade chamada “Supercomunismopracaralho” e todo dia postava um “ensinamento”. Era meio que uma paródia de um livro sagrado de uma religião fictícia. Não lembro exatamente COMO surgiu a ideia de transformar em quadrinho, pra ser bem sincero. Sei que o Allan chegou a desenhar a capa e fazer uns estudos de personagem ali por 2004 ou 2005, mas depois disso nunca mais levamos o troço muito a sério. Ele acabou se envolvendo em um monte de compromissos profissionais, eu em outros, e nunca pintou uma proposta realmente consistente pra desenvolver o projeto. Então fomos deixando de lado. Todo ano a gente meio que fala “agora vamos fazer”, mas no fim os dois se amarram e não tocam o troço pra frente. Talvez um dia role, mas por enquanto não há uma perspectiva muito boa. Infelizmente.
Em 2005 pela Editora de DBA lançou o livro de contos “Cavernas & Concubinas”. Pretende escrever outro? Caso afirmativo, fale sobre ele.
Estou no processo há uns 2 ou 3 anos e, pelo andar da carruagem, ainda vai levar outros 2 ou 3. Vai ser meu primeiro romance. O título provisório, durante um bom tempo, foi “Águas internacionais”, mas na metade do ano passado mudei para “O Sensual Adulto”. Pelo planejamento inicial, deve ser um calhamaço de pelo menos 500 páginas. Com um bom editor trabalhando em cima, talvez consiga reduzir prumas 300 ou 250, mas vamos ver. Ainda tem muita coisa pra rolar, ainda tem muita coisa pra escrever. Como abandonei o mundo dos blogs e não tenho mais publicado nada na internet (ou em qualquer outro lugar) nos últimos 5 ou 6 anos, esse livro deve condensar muita coisa que eu pensei e penso sobre muitos assuntos em todo esse tempo. Tem sido um processo bem interessante. É muito difícil escrever. Ficção é um troço mesmo muito complicado. Estou desde julho do ano passado trabalhando diariamente no livro e até agora o que eu mais consegui foi: fracassar. Não existe um botãozinho que a gente aperta e pronto: agora vou escrever ficção.
É um troço monstruoso, brutal, que traz muito mais medo, horror, insegurança, stress e dor do que eu jamais poderia sonhar. Mas ao mesmo tempo, é um troço que eu precisava fazer. Estou há muitos anos adiando essa tentativa, e não dá mais pra adiar. Agora é fracassar e morrer muito todos os dias pra ver o que acontece lá adiante.
Além de escrever, em que projetos anda evolvido?
No momento, em nenhum. Mas confesso que isso anda me deixando completamente maluco. Preciso fazer alguma coisa. Às vezes eu faço música no meu computador, e divulgo por aí sob a alcunha Evillips. Esses tempos, depois de fracassar muito umas duas semanas consecutivas no livro, peguei vários projetos antigos e finalizei. Acho que foram umas 38 músicas em uma noite. Não sei se dá pra dizer que isso é um projeto em que eu estou envolvido, mas naquele momento, pelo menos, foi.
Acompanhando a produção na internet feita atualmente – seja dentro ou fora do Brasil - quais destaques faria?
Nenhum. Vocês todos deveriam se envergonhar e fazer coisas melhores para me entreter. Agora falando sério: tem muita coisa aí, mas é muito difícil encontrar algo realmente bom, que me empolgue. Um troço que volta-e-meia ainda me diverte são quadrinhos. O Perry Bible Fellowship, por exemplo, era muito sensacional. Eu ia dizer “pena que acabou”, mas na real: GRAÇAS A DEUS QUE ACABOU. É um dos raros exemplos de alguém que soube quando parar. Às vezes ter a decência de parar é quase tão importante quanto começar.
Espaço cedido para considerações finais.
Não escrevo mais em CAPS LOCK. Cumpriu um ciclo, foi legal enquanto durou, mas meio que colei as placas e passei do limite. Aí gastou e eu não quero mais saber disso. Enfim: só pra avisar.




