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KIDIDS

André Czarnobai, mais conhecido como Cardoso (não confundir com o @Cardoso), responde também pela alcunha de Kidids; criou o Cardosonline (ouça o áudio documentário aqui), escreveu o livro “Cavernas & Concubinas” (DBA) e já teve textos publicados na Piauí, no site da Revista Trip, Zero Hora e Brasil Econômico. Kidids fala sobre jornalismo, imersão, ficção, quadrinhos e o fim da era Capslock.

O jornalismo nos dias de hoje esta mais preocupado com o comportamento das pessoas diante de algum fato que as afeta (aumento de salário = maior poder de compra para uma família, por exemplo)  ou apenas por ter exposição na mídia (reality shows) ou seja, a visão superficial dos fatos é uma regra. Qual sua opinião sobre essa tendência na profissão?

Não acho que a visão superficial dos fatos seja a regra, mas sim uma “humanização” dos fatos - o que considero um grande acerto. Por mais que seja um recurso do qual se abusou nos últimos anos, acho que funciona muito bem traduzir os números em fatos. É muito mais compreensível ver o depoimento do tiozinho que teve que fechar a empresa familiar por causa da entrada de produtos orientais extremamente mais baratos no mercado do que simplesmente dizer que a indústria nacional recuou tanto por cento por causa do crescimento de tanto por cento da economia chinesa. Não considero que isso seja uma versão superficial, é apenas uma versão mais acessível. Eu, por exemplo, peno muito pra entender o que significa, na prática, a derrocada do Euro ou o rebaixamento das notas de países nessas misteriosas agências de classificação, que usam critérios ainda mais misteriosos pra definir coisas que praticamente ninguém entende em sua totalidade. Imagina então uma pessoa que não passou pelo sistema educacional - ou pior, que passou pelo sistema educacional brasileiro depois dos anos 90? De qualquer forma, talvez essa “mundanização” da informação soe, em alguma medida, como uma banalização, mas ainda acho que esse não é o ponto central. Pra mim, o importante é que mais pessoas tenham acesso à informação e sejam capazes de interpretá-la, e vejo esse esforço com muito bons olhos. Todavia, infelizmente, não é o que acontece. As pessoas não são capazes de entender o que acontece às suas voltas. Raríssimas pessoas são capazes de manifestar um pensamento crítico, mesmo que seja totalmente equivocado. Estamos vivendo um momento esquisito, em que é mais importante replicar do que refletir. Pra mim é aí que mora o problema. O cara acha sensacional o Brasil ter tanta gente com acesso ao ensino superior, mas jamais para pra se perguntar qual é a qualidade desse ensino - e, consequentemente, qual será a qualidade dos profissionais formados nessas instituições. Isso é um pensamento muito atrasado, mas se tu abre a boca pra falar algo contra acaba correndo o risco de ser apedrejado em praça pública. Aliás, as dicussões no Brasil se polarizaram de uma forma muito bizarra nos últimos tempos. É um maniqueísmo rasteiro, bobo, que não leva a lugar algum - e isso sim é um grande problema.

George Plimpton escreveu “Paper Lion”, sobre suas experiências jogando futebol americano na liga profissional pelo Detroit Lions. Se pudesse, faria um trabalho jornalístico nos mesmos moldes? E sobre qual assunto gostaria de praticar uma imersão maior?

Sim, faria muito. E gostaria de praticar uma imersão maior em muitos e muitos universos. Alguns anos atrás uma grande editora me convidou para escrever um livro justamente nessa pegada. Eles sugeriram que eu mergulhasse no universo dos taxistas em uma grande cidade como o Rio ou São Paulo, mas confesso que o tema não me atraiu. Propus fazer uma grande investigação sobre os frequentadores dos clubes de tiro - teoricamente, os únicos civis que tem direito ao porte de armas no Brasil -, mas aí quem não gostou muito da ideia foram eles e as coisas não foram mais pra frente.

Cite três livros de jornalismo literário que recomenda. Faça um comentário sobre cada um.

“Queda Livre”, de Otavio Frias Filho: talvez o mais próximo de jornalismo gonzo que um brasileiro tenha chegado com sucesso; “The New Journalism”, do Tom Wolfe: está tudo ali, principalmente as críticas, ilusões, limitações e defeitos mais pertinentes do gênero; “A Luta”, de Norman Mailer: maior prova de que um bom texto pode deixar interessante até mesmo uma luta de boxe.

A HQ “Supercomunistapracaralho” em parceria com Allan Sieber será lançada esse ano ou ainda está em produção? E como se deu a parceria?

Rapaz, eu e o Allan nos conhecemos há muito tempo, e muito antes de toda essa mania de escritores e quadrinistas firmarem parcerias pra produzir histórias conjuntas nós já falávamos sobre o SCPC. Na real, a ideia surgiu em 2003. Eu trabalhava na redação de um site noticioso e os caras me proibiram de ter um blog. Então eu passei 30 dias escrevendo uma narrativa ficcional no Orkut - que viagem. Criei uma comunidade chamada “Supercomunismopracaralho” e todo dia postava um “ensinamento”. Era meio que uma paródia de um livro sagrado de uma religião fictícia. Não lembro exatamente COMO surgiu a ideia de transformar em quadrinho, pra ser bem sincero. Sei que o Allan chegou a desenhar a capa e fazer uns estudos de personagem ali por 2004 ou 2005, mas depois disso nunca mais levamos o troço muito a sério. Ele acabou se envolvendo em um monte de compromissos profissionais, eu em outros, e nunca pintou uma proposta realmente consistente pra desenvolver o projeto. Então fomos deixando de lado. Todo ano a gente meio que fala “agora vamos fazer”, mas no fim os dois se amarram e não tocam o troço pra frente. Talvez um dia role, mas por enquanto não há uma perspectiva muito boa. Infelizmente.

Em 2005 pela Editora de DBA lançou o livro de contos “Cavernas & Concubinas”. Pretende escrever outro? Caso afirmativo, fale sobre ele.

Estou no processo há uns 2 ou 3 anos e, pelo andar da carruagem, ainda vai levar outros 2 ou 3. Vai ser meu primeiro romance. O título provisório, durante um bom tempo, foi “Águas internacionais”, mas na metade do ano passado mudei para “O Sensual Adulto”. Pelo planejamento inicial, deve ser um calhamaço de pelo menos 500 páginas. Com um bom editor trabalhando em cima, talvez consiga reduzir prumas 300 ou 250, mas vamos ver. Ainda tem muita coisa pra rolar, ainda tem muita coisa pra escrever. Como abandonei o mundo dos blogs e não tenho mais publicado nada na internet (ou em qualquer outro lugar) nos últimos 5 ou 6 anos, esse livro deve condensar muita coisa que eu pensei e penso sobre muitos assuntos em todo esse tempo. Tem sido um processo bem interessante. É muito difícil escrever. Ficção é um troço mesmo muito complicado. Estou desde julho do ano passado trabalhando diariamente no livro e até agora o que eu mais consegui foi: fracassar. Não existe um botãozinho que a gente aperta e pronto: agora vou escrever ficção.
É um troço monstruoso, brutal, que traz muito mais medo, horror, insegurança, stress e dor do que eu jamais poderia sonhar. Mas ao mesmo tempo, é um troço que eu precisava fazer. Estou há muitos anos adiando essa tentativa, e não dá mais pra adiar. Agora é fracassar e morrer muito todos os dias pra ver o que acontece lá adiante.

Além de escrever, em que projetos anda evolvido?

No momento, em nenhum. Mas confesso que isso anda me deixando completamente maluco. Preciso fazer alguma coisa. Às vezes eu faço música no meu computador, e divulgo por aí sob a alcunha Evillips. Esses tempos, depois de fracassar muito umas duas semanas consecutivas no livro, peguei vários projetos antigos e finalizei. Acho que foram umas 38 músicas em uma noite. Não sei se dá pra dizer que isso é um projeto em que eu estou envolvido, mas naquele momento, pelo menos, foi.

Acompanhando a produção na internet feita atualmente – seja dentro ou fora do Brasil - quais destaques faria?

Nenhum. Vocês todos deveriam se envergonhar e fazer coisas melhores para me entreter. Agora falando sério: tem muita coisa aí, mas é muito difícil encontrar algo realmente bom, que me empolgue. Um troço que volta-e-meia ainda me diverte são quadrinhos. O Perry Bible Fellowship, por exemplo, era muito sensacional. Eu ia dizer “pena que acabou”, mas na real: GRAÇAS A DEUS QUE ACABOU. É um dos raros exemplos de alguém que soube quando parar. Às vezes ter a decência de parar é quase tão importante quanto começar.

Espaço cedido para considerações finais.

Não escrevo mais em CAPS LOCK. Cumpriu um ciclo, foi legal enquanto durou, mas meio que colei as placas e passei do limite. Aí gastou e eu não quero mais saber disso. Enfim: só pra avisar.

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DANIEL GALERA

O escritor Daniel Galera, que anunciou um novo livro com título provisório de “Barba Ensopada de Sangue” para o segundo semestre de 2012, concedeu uma entrevista diferente para o Porta na Cara. Galera fala sobre videogames, natação, corrida, Livros do Mal e David Foster Wallace. Acompanhe.

 

Na revista Monet assinava a coluna “Jogatina” onde escrevia sobre videogames. E para a revista Serrote fez um ensaio sobre o jogo “Prince of Persia”. Assim como a literatura, os videogames tiveram uma forte influência sobre você?

Os videogames tiveram uma influência tão forte quanto os livros, os filmes e a música na minha formação cultural. Não os vejo somente como distração. Jogos têm histórias, personagens, enredos e aspectos estéticos que podem ser muito sofisticados. Mesmo quando não apresentam uma narrativa clássica distinguível, propiciam um outro tipo de experiência narrativa ou de alegoria. “Tetris” não tem enredo, mas a mecânica do jogo é narrativa num certo sentido. Tentei falar disso numa cena do meu romance “Mãos de Cavalo” onde três adolescentes que estão sentindo sua amizade acabar dedicam uma tarde inteira a criar uma pista de corrida impossível de ser completada num jogo de computador chamado “Stunts”. Escrevo ocasionalmente sobre jogos porque são importantes pra mim e quero entendê-los. Além disso, a imprensa em geral me parece tragicamente despreparada para escrever sobre videogames como cultura, de uma forma que ultrapasse o mero serviço ao consumidor.

Você escreveu o perfil da modelo Alessandra Ambrosio para a revista Rolling Stones usando artifícios da ficção. Por que optou por esse método?   Ficou satisfeito com o resultado?

O perfil tem só um toque ficcional. Fiz essa opção porque tive um prazo curto e apenas uma oportunidade rápida de entrevistar a Alessandra durante a sessão de fotos da revista, coisa de duas horas, enquanto ela trabalhava. Encontrei o gancho do texto quando ela disse muito seriamente que pretendia ir à lua nessa espaçonave civil que estão criando. Me dei conta de como o mundo era literalmente pequeno para ela, por causa da carreira. Fiquei satisfeito, mas dias depois da publicação da revista saiu na imprensa que ela estava grávida. Ela me falou da intenção de ter filhos no futuro. Até hoje não sei se ela ocultou isso de mim ou se ainda não sabia. Teria rendido um texto bem mais interessante.

Já para revista Piauí, escreveu “No Mar de Copacabana não tem Leviatã”, sobre a Travessia dos Fortes. Costuma participar regularmente de eventos esportivos como esse ou só acabou indo por causa da matéria? Ainda sobre natação, escreveria um livro sobre o assunto?

Durante alguns anos fui participante regular de travessias marítimas. Nado desde os catorze e sou apaixonado pelo esporte. Eu pretendia participar da prova de qualquer maneira e sabia que o Mario Sérgio, editor da revista, também nadava, então sugeri a pauta e uni o útil ao agradável. Eu adoraria escrever um livro sobre o assunto, mas para isso teria que entrar mais a fundo na coisa, treinar para participar de alguma prova mítica ou algo assim. Esses tempos descobri um livro maravilhoso. Era uma espécie de guia de turismo para pessoas que gostam de nadar na natureza, ao ar livre. Tipo “Os cem melhores lugares para nadar ao ar livre nos Estados Unidos”. Lagos, praias, rios, ilhas, mares. Fiquei pensando como seria fantástico viajar pelo Brasil para escrever um livro desses. De todo modo, o romance que estou escrevendo agora explora um pouco o meu gosto por nadar no mar.

Haruki Murakami escreveu o livro “Do que falo quando falo de corrida” e diz que correr e escrever não são atividades muito diferentes.  Já Joyce Carol Oates afirma que não há nada melhor para estimular a imaginação do que o ato de correr.  Qual sua opinião a respeito do assunto?

Concordo com eles no sentido de que toda atividade física que requer uma certa concentração e induz a estados meditativos favorece o trabalho criativo. É muito comum eu ter ideias boas ou resolver impasses de algum trabalho em progresso enquanto estou correndo ou nadando. E não vejo a mente como um sistema separado do corpo. A mente é o resultado da interação do organismo com o mundo. A atividade física pode exercer um efeito poderoso sobre o processo de criação.

“Velho Branco” é seu projeto de música experimental.  Fale um pouco sobre ele.

O que tu chama de projeto de música experimental não passa, na realidade, de um conjunto de seis ou sete faixas instrumentais que gravei e mixei em casa em 2003 com equipamento muito rudimentar. Mas eu gosto muito desse material e tenho ambição de retomar a experiência mais a sério qualquer dia. A ideia é explorar texturas do folk lo-fi. A maior referência é uma banda que adoro, The Microphones. Também já pensei em ir pro meio do mato gravar um álbum de black metal acústico com distorção pós-processada em dupla com meu amigo Daniel Pellizzari. Difícil acontecer, mas a gente gosta muito de falar dessa ideia.

A editora Livros do Mal (criada em parceria com escritor Daniel Pellizzari e o ilustrador Guilherme Pilla) completou em 2011 dez anos.  Olhando para trás, o que achou da experiência em ter sua própria editora?  Quais foram os prós e os contras?

Não teve contras. A gente queria fazer isso pra se divertir, pelo prazer de mexer com a edição de livros e para introduzir o nosso trabalho e o de outros novos autores no mercado. E foi o que aconteceu. Ainda tenho saudade de botar a mão na massa pra fazer capa, diagramar, escolher papel. O único problema é que a editora começou a dar certo e surgiram questões econômicas, burocráticas e logísticas que nos obrigaram a escolher entre uma vida de editor/empresário e uma vida de escritor/tradutor. Mas foi ótimo enquanto durou e acho que cumpriu bem seu papel.

 Junto com Daniel Pellizzari, você traduziu “Trainspotting” e “Pornô” de Irvine Welsh. A parceria se repetiu com a tradução da obra de não-ficção de David Foster Wallace. Os livros “A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again” e “Consider The Lobster” foram traduzidos na integra ou foi feita uma seleção dos melhores ensaios? Qual a importância da tradução desses textos no Brasil?

O livro que eu e o Pellizzari estamos traduzindo é uma antologia dos ensaios mais engraçados e acessíveis escritos pelo David Foster Wallace. Os textos são pinçados das duas antologias americanas e também de revistas e da internet. Tive a ideia da antologia quando soube que o “Breves entrevistas com homens hediondos” tinha vendido muito mal no Brasil. O objetivo é apresentar a obra do autor a um público maior que depois poderá encarar seus outros livros e ensaios. Falei direto com a agente do Wallace e ela me disse que tinham feito algo semelhante na Alemanha, com sucesso. Montei o projeto e apresentei à Companhia das Letras, que se interessou. A antologia vai sair em 2012 e ano passado tivemos a feliz notícia de que a editora também adquiriu direitos dos romances “Infinte Jest” e “The Pale King”, que deverão ser traduzidos pelo grande Caetano Galindo. Meu desejo é que isso faça muitos leitores felizes. David Foster Wallace é um dos grandes escritores das últimas décadas, um autor crucial da literatura moderna. Sua abordagem das questões do consumismo, entretenimento, identidade e autoconsciência na vida moderna é genial. É uma ficção que impõe desafios de forma e linguagem, mas que é brutalmente recompensadora.

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RODRIGO LEVINO

O jornalista Rodrigo Levino nasceu no Rio Grande do Norte, reside em São Paulo, foi redator da CBN Natal, passou pela redação da revista Veja e é editor-assistente na Folha de São Paulo. Você pode segui-lo aqui. Levino fala sobre a carreira, literatura, festivais no Brasil e boas publicações jornalisticas atuais.

Redator na CBN Natal com apenas 23 anos, passou a ser colaborador de revistas como Playboy, Trip, Piauí, Rolling Stones entre outras; atualmente está no portal da revista Veja. Poderia fazer um balanço de sua carreira até o momento?

“Balanço da carreira” é pretensioso. Eu faço o que gosto e sou dedicado a isso. Olhando em retrospecto, penso que tive coragem e um tanto de sorte – isso de deixar Natal, que tem um mercado com enormes limitações, e vir para São Paulo arriscar. Olhando adiante, é normal que se pense em uma carreira. Mas é uma ilação menor. Me interessa o aprimoramento do que faço.

Que impressões teve ao fazer a cobertura dos festivais Rock in Rio e SWU para a Veja? O que achou da organização? Estaria o Brasil melhor preparado para abrigar eventos desse porte?

Se pensarmos em relação a, sei lá, a primeira edição do Rock in Rio, que inaugura esse flanco, sim. Não há comparação – a julgar pelos relatos da época. O SWU deste ano foi melhor organizado que o de 2010. Muito embora o line up do ano anterior tenha sido bem melhor. O Rock in Rio é exaustivo, excessivamente longo, tem um line up enorme e por isso mesmo passível de muitos erros. Talvez se fosse mais enxuto a relação custo — e não falo apenas do financeiro, mas de disposição, conforto – benefício seria mais interessante. Nesse sentido o Terra é melhor resolvido. Mas tanto estamos preparados que novos festivais não param de ser anunciados. Agora, é ilusão achar que lá fora tudo é perfeito. Este ano eu esperei mais de 3 horas por transporte ao fim do Primavera Sound, em Barcelona.

Você tem dois livros lançados (“Aos Pedaços”, coletânea de contos curtos e “Dias Estranhos”, crônicas). Durante entrevista ao site Porta Literal, em 2008, disse estar preparando um romance, mas sem pressa. O projeto está em andamento ou o deixou de lado?

Deixei de lado. Junto com todas as pretensões literárias.

A literatura contemporânea brasileira atravessa uma boa fase com autores de qualidade. Quais deles você admira o trabalho e por quê?

Sim. Dentre mais jovens (talvez uma palavra inapropriada), gosto dos livros de Tatiana Salem Levy, Daniel Galera, Paulo Scott, Daniel Pellizzari, por serem grandes narradores e terem personagens muito bem construídos. Admiro a literatura de Bernardo Carvalho, meu autor brasileiro predileto, por ser objetiva, sem ter o que cortar, e cuja voz é universal, não se deixa limitar pelo termo “literatura brasileira”. Dos poetas me veem à cabeça Fabricio Corsaletti e Ana Guadalupe, herdeiros de Drummond.

Quais são suas influências e como é seu método de trabalho?

Não gosto de falar de influências. Alguma coisa de tudo que leio pode se refletir no meu trabalho ou nem isso. Busco alcançar características gerais dos autores que gosto, como precisão, objetividade e clareza no texto. Meu método se baseia na demanda: se eu preciso escrever, eu vou escrever, mesmo que isso custe horas, dias e um esforço quase exaustivo.

Como enxerga o jornalismo praticado no Brasil atualmente?

Cheio de falhas, como no mundo inteiro, mas por isso mesmo rico; algo que se regula pelos excessos, que se aprimora na falta de estrutura e cujo curador é o leitor, que faz suas escolhas baseadas em formação cultural, política, social. Estamos obviamente longe das condições de qualquer grande veículo europeu ou americano. Aliás, da maioria dos veículos de mídia médios desses lugares.

Existem boas publicações de menor expressão a disposição do leitor interessado? Cite algumas.

Não me ocorre nenhuma brasileira que eu realmente goste. Das estrangeiras eu gosto da Slate, da McSweeney’s, da Correspondencia, uma revista argentina sensacional, do Ñ, que é um suplemento cultural do Clarín, do Babelia, o caderno literário do El País.

E, para finalizar, qual foi a reportagem que mais gostou de fazer?

A cobertura do conflito na Raposa Serra do Sol, em Roraima. Tive o imenso prazer de chegar ao foco da disputa nos dias mais quentes, quando a decisão de invadir a reserva indígena e retirar os fazendeiros estava sendo tomadas pelo STF. Foi bom estar lá no auge da tensão.

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ARNALDO BRANCO

Arnaldo Branco é cartunista, criador da tira Mundinho Animal, Capitão Presença e do Agente Zero Treze. Publica na Folha de São Paulo, G1 e Monet. O cartunista fala sobre o trabalho de roteirista para televisão, uma nova adaptação de Nelson Rodrigues para os quadrinhos e a experiência como repórter da revista Bizz.

 

Como está a produção dos seriados “Rock’n’roll” (piloto para a MTV) e “Morro da Neurose” (produção da Alta Cúpula)?

Rock’n’roll, terminando escolha de elenco, devemos filmar em fevereiro. Morro da Neurose, escrevi os dois primeiros capítulos, o terceiro ficou a cargo do Ulisses Mattos e do Nigel Goodman, faltam mais três pra fechar a série. Vou dirigir o piloto de RnR, prometo interromper a carreira precocemente se o resultado não (me) agradar.

Você continua como roteirista nessa nova fase do Casseta & Planeta?  Comente.

Sim, de novo junto com o Allan. O programa vai mudar, a gente está inclusive fazendo muitos roteiros de animação (em 2D e stop motion). Mas a maior mudança pra mim são as reuniões no Projac, uma ponte aérea terrestre.

Sente falta dos tempos que foi repórter da Revista Bizz? Fale um pouco sobre a experiência que obteve.

Não sou bom jornalista, gosto de escrever mas sou muito tímido para abordar as pessoas. Mas a Bizz foi sensacional, o editor (Ricardo Alexandre) estimulava todo mundo a ser o menos objetivo possível, o que acho muito saudável nesse tempo em que o texto jornalístico se escreve sozinho, de tanta regra.

A falta de tempo foi o motivo para deixar a coluna Mal Necessário?

Sim, estou trabalhando para tantos lugares que é difícil manter uma coluna semanal - não estou me gabando, odeio trabalhar mas tenho esse problema de não conseguir dizer não. Sinto falta da Mal Necessário, principalmente da repercussão negativa entre os comentaristas anônimos.

Gostaria um dia explorar sua habilidade em criar personagens e escrever um romance?

Talvez, pelas regalias, pergunta pro Mutarelli quais eventos são os mais regados, os de quadrinhos ou de literatura. Mas meus personagens são bem rasteiros, todos podem ser explicados em uma frase, nenhum deles possui cicatrizes visíveis ou traumas de infância, provavelmente fracassaria nessa indústria vital. 

“Vestido de Noiva”, adaptação em HQ da obra de Nelson Rodrigues, foi feita mais uma vez em parceria com Gabriel Góes. (Aqui o entrevistador vacila, esquece a pergunta e pede desculpa)

Isso é um fato, senti falta da pergunta. Mas sobre Vestido de Noiva, está ficando lindo demais, o Gabriel está quase entregando. O trabalho de roteiro é mais elaborado pela natureza do texto, e o Gabriel está quatro anos mais talentoso do que da última vez em que fizemos uma hq baseada em Nelson Rodrigues juntos.

“Invernada de Olaria”, sobre a ação de grupos de extermínio nos anos 70, é um projeto de HQ anunciado em 2009. Ele está em andamento? 

Não, não tenho uma editora interessada. Está na gaveta lotada dos projetos que sofrem da Maldição do Inédito.

Há planos de um novo livro do Capitão Presença?

Não por enquanto, não faço tiras pro personagem regularmente. Ia virar animação por encomenda de um canal de TV, tenho seis roteiros prontos mas não tenho mais certeza se vai sair. Se não rolar seria a segunda vez que um desenho animado do Preza rodaria pelo risco criado por essa lei completamente psicodélica de apologia às drogas.

Obrigado, Arnaldo.  Fica o espaço para considerações finais.

Preciso de férias, mas imagino que Hércules tinha o mesmo problema e a gente não leu nada sobre ele reclamando.

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ALEXANDRE SOARES SILVA

Alexandre Soares Silva é escritor e lançou os livros “A Coisa não Deus”, “Morte e Vida Celestina” e participou da coletânea temática “A Visita”, pela editora Barracuda. Foi membro dos finados grupos Wunderblogs e Apostos. Você pode ler o blog dele aqui. Humor na literatura, novo livro, roteiro para um seriado da HBO são os assuntos abordados nesta entrevista.

*Entrevista feita em Junho do ano passado

Daniel Pellizzari, em seu antigo blog Fail Better, escreveu que se preocupa com o fato da ironia, humor e a paródia ainda serem considerados subgêneros na literatura brasileira. Já Daniel Galera, observa que ultimamente não há divisões para o que é mais ou menos literário. Qual sua opinião?

Não só na literatura brasileira: dificilmente você vai encontrar P.G.Wodehouse, por exemplo, numa lista de 5 melhores escritores do século XX. Mas deveria. Há uma tendência nas pessoas, natural mas cretina, de valorizar o drama e desvalorizar o humor. Cary Grant, considerado por muitos atores como o melhor ator de cinema que já existiu, nunca recebeu um Oscar, provavelmente por se especializar em comédias leves e nunca ter feito papel de paraplégico que pinta, doente que quer eutanásia, etc.

Na literatura brasileira deveríamos ser capazes de não ser assim, já que o maior escritor brasileiro (Machado de Assis) era engraçado. (Nesse aspecto somos diferentes e melhores que a literatura russa: o melhor romancista russo, Tolstói, não era engraçado).  Mas seguimos a tradição mundial de valorizar o solene. Há um espaço para escritores leves ou engraçados - Juó Bananere, Sérgio Porto, etc. - mas a valorização está toda do lado das Clarices Lispectors.

Seu último romance, Morte e Vida Celestina, foi lançado em 2004. Está trabalhando em um novo livro no momento? E quais são seus critérios na hora de escrever?

Sim, estou reescrevendo um romance desde 2006. Apesar da lentidão, está indo bem. Vai ser uma novela, ou noveleta, de perto de cem páginas.

Meu critério é o que me agrade. Mas acho que nunca vou conseguir escrever sem colocar duas coisas na história: humor (pelo menos um pouco; pelo menos para quebrar a atmosfera solene), e alguma forma de transcendência ou sobrenatural. O mundo real só me interessa até certo ponto - realmente preciso falar sobre fantasmas ou monstros ou anjos, para manter o meu próprio interesse. Minha solução tem sido falar sobre o Paraíso.

Você será roteirista de uma série da HBO. Do que se trata?

É uma série sobre três prostitutas de luxo, que vai provavelmente começar a ser filmada no final deste ano, e passar na tevê no ano que vem. É um misto de comédia e drama. Ajudei a planejar a série e escrevi três episódios.

Nelson Rodrigues pediu para os jovens envelhecerem. Qual o seu conselho?

Rirem de modo menos grotesco e mais natural quando estão andando em grupos. Os melhores jovens são os que parecem velhinhos precoces, gostam da companhia do avô e andam meditativamente, com as mãos nas costas. Esses, infelizmente, são virgens e sofrem por isso; recomendo que aprendam a tocar guitarra e estudem as técnicas do que se chama “Game” (negs, kino, etc.)

Vladimir Nabokov tinha obsessão por ninfetas e borboletas. E quais seriam as suas?

Houve uma época que roupas masculinas me interessavam - como assunto, nunca fui de prestar muita atenção em como eu mesmo me vestia. E móveis, e arquitetura de modo geral. Roupas deixaram de me interessar, mas um sentido de lugar ainda é importante pra mim: todos os meus livros foram sobre um lugar. Além disso percebo que escrevo sempre sobre timidez, charme, sociabilidade.

Com a exceção dos escritores Galera, Pellizzari e Fabio Danesi Rossi (que você em algum momento já citou apreciar o trabalho), quais escritores brasileiros contemporâneos você gosta?

Difícil. Acho que nenhum. Não estou condenando todos, porque não li muitos. Sou anglófilo a um ponto quase doentio, e sempre prefiro ler literatura inglesa. Se uma história se passa no Tucuruvi, já estou sofrendo, e a tucuruvicidade me parece que solapa as qualidades literárias que o texto tenha.

Para encerrar, o que anda lendo, o último filme que viu, e, em sua opinião, quem é o pior escritor brasileiro de todos os tempos?

Acabei de ler um livro muito bom, “Primary Colors”, de Alexander Theroux. São três ensaios sobre o azul, o amarelo e o vermelho. São escritos sem ordem lógica que eu tenha percebido, listando exemplos das cores primárias na literatura, na natureza, na pintura, na simbologia, etc (nesse livro fiquei sabendo que as mãos de Beethoven eram anormalmente vermelhas.) É tudo muito bem-escrito, com um detalhismo Nabokoviano.  Agora estou lendo The Master and Margarita, mas estou bem no início. Estou tentando também fazer a experiência de ler vários livros ao mesmo tempo no computador. O problema é que recentemente baixei dezenas de livros, e pensei em ler umas páginas de cada um por dia, caso contrário nunca vou ler todos. Um deles é “Le Travail du Style enseigné par les corrections manuscrites des grands écrivains”, de Antoine Albalat, que está me parecendo bastante bom. E estou lendo “À Sombra das Chuteiras Imortais”, os textos de Nelson Rodrigues sobre futebol, pra ver se volto a gostar de futebol a tempo de aproveitar alguma coisa da Copa (nota: a entrevista foi feita em Junho de 2010). Não está funcionando, mas a leitura me diverte muito. Quanto ao pior escritor brasileiro de todos os tempos, Clarice Lispector. Mas acho Rubem Fonseca especialmente desajeitado.

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CHICO BARNEY

Chico Barney, 28, é publicitário e uma das grandes personalidades da internet brasileira. É criador do Interbarney, escrevia no Vai Trabalhar, Vagabundo e está com um novo projeto. Chico também fala sobre o ídolo Norm Macdonald, Carlos Lombardi e grade televisiva dominical.

 

Três grandes momentos da televisão brasileira em cada fase de sua vida: Infância, adolescência e adulto.

TV Colosso, MTV e Big Brother. São três coisas bem diferentes, mas muito criativas e populares.

O Interbarney foi vendido por oitenta reais? Esse fato é real?

Troquei o Interbarney por uma dívida de 80 reais. Não quis pagar e o Seu Felipe decidiu herdar o megaportal e o prejuizo.

Estaria você, assim como Alexandre Frota, preparando um monólogo contando os bastidores da indústria do entretenimento?

Talvez seja um monólogo porque ninguém acessa mais blogs como os meus hoje em dia (nem nunca acessaram pensando bem), mas o senhor pode ficar por dentro desse projeto em http://chicobarney.interbarney.com/, abs

Carlos Lombardi é o nosso Francis Ford Coppola. Por que a grande mídia não dá o devido reconhecimento ao criador de “Uga Uga” e “Kubanacan”?

Imagino que Lombardi tenha feito os inimigos certos. Por isso vive esse momento de reclusão. Os trabalhos deles foram todos memoráveis. Pé na Jaca tem um brilho muito especial. Ele salvou Bang Bang simplesmente ao colocar o Pasquim na novela. Escreveu a melhor fase da história da Malhação com Luana Piovani e aquele ex-ator que virou diretor na Globo. E tem a Trilogia das Trilogias, com Uga-Uga, Kubanacan e Quinto dos Infernos. Precisa voltar rápido ao ar.

Fale sobre Norm Macdonald, o nobre.

É frustrante, porque os programas dele nunca são tão bons quanto ele. Gostaria que achasse o projeto certo, como foi a fase do Weekend Update ou como quando ele é convidado para qualquer talk show. O Sports Show no Comedy Central foi um desastre e nem vai ter nova temporada.

“A televisão de domingo é uma explosão de sabores, sensações e texturas. Procuro assistir a tudo”. Ainda segue essa saudável filosofia de vida?

Sem dúvida. Ainda mais durante o verão, que tem Esquenta e Big Brother.

Se você pudesse escolher, qual seria a escalação do elenco dos sonhos de A Fazenda?

Queria uma edição da Fazenda só com ex-BBBs, isso racharia a internet ao meio.

Qual foi a melhor fase do Avaí em Campeonatos Brasileiros?

Provavelmente é uma fase que ainda está por vir.

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JULIANA CUNHA

Juliana Cunha, 23 anos, é jornalista da Folha de São Paulo. Também publicou nos veículos A Tarde, Estadão, Trip e Superinteressante. Lançou o livro interativo “Gaveta de Bolso” (Editora Prologo) com ilustrações de Luda Lima. Juliana escreve aqui e você pode segui-la aqui. Na entrevista: Salinger, trabalho na redação, o processo de criação do seu livro e fotografia. 

Impressiona a qualidade das suas postagens em seu blog (“O Fetiche do Emprego” e “Algumas Dicas para Freelas” em especial), superior a muita coisa escrita por cronistas em jornais. Há uma preocupação com o texto na hora que vai escrever ou não se importa muito com isso?

Claro que fico orgulhosa quando o post fica bom e preferiria só publicar coisas legais, mas procuro não ligar muito para qualidade. Quer dizer, eu sou jornalista e estudante de letras, escrevo por dinheiro/estudo o dia inteiro, sendo obrigada a me preocupar com o manual da redação, padronização, ABNT, gramática normativa etc. No meu blog é muito importante para mim que eu não ligue tanto para qualidade e mais para o prazer. Justamente por isso me recuso a fazer post pago, publieditorial, a atrelar o blog a algum portal que me pague por isso etc. 

Recentemente lançou o livro interativo “Gaveta de Bolso” que conta com ilustrações de Luda Lima. Como surgiu a ideia do livro e como foi o processo de criação?

Eu estava no lançamento da exposição de um amigo quando duas moças vieram me dizer que tinham uma editora e queriam publicar algo meu. Continuei bebendo e dizendo “senta lá”, mas uns quinze dias depois uma delas ligou e disse que era sério, daí comecei a pensar no que fazer.

Eu não queria fazer um romance porque não me sinto habilitada. Não queria fazer uma coletânea de textos legais do meu blog porque, né, Deus mata um gatinho toda vez que alguém publica uma coletânea de melhores textos do blog.

Gosto muito da ideia desses livros interativos porque eles relativizam essa questão da autoria e são despretensiosos, leves, tudo que eu queria que um primeiro livro fosse.

Hoje não estou 100% feliz com o livro. Acho que poderia ter mais textos, outros textos, que podia ter mil coisas diferentes, mas consigo sentar no sofá, ler cada uma das páginas e não me deprimir. Acredite: isso é muita coisa depois de passar tanto tempo preparando o livro e lidando com os mesmos textos.

Para começar o processo de criação, fiz uma triagem de textos que eu já tinha – uns do blog, outros da coluna que eu tinha primeiro no “Jornal A Tarde”, depois na Rádio “Metrópole”. Peguei os que eu mais gostava e cortei loucamente porque os textos do livro precisavam ser curtos para caber na proposta de livro interativo.

Isso serviu como base para eu reescrever as coisas num tamanho menor, de outro jeito. Outros textos são inéditos, fiz para o livro mesmo. E outros eu fiz para o livro e acabei colocando no blog depois.

Depois que os textos foram escritos, a Lú começou a ilustrá-lo. Foi tudo bem manual: a gente tinha um caderno com todas as ilustrações e vários textos manuscritos que funcionava quase que como um boneco. Mudamos muita coisa durante o processo (acho até que vamos separar o que não foi usado e colocar no blog).

A gente teve muita liberdade, a editora não interferiu em quase nada. Até o tipo de papel foi escolha minha e da Ludmila. Essa é a parte mais legal de trabalhar com uma editora pequena.
Editoras grandes têm como vantagem a distribuição e o esquema mais profissional. Já as pequenas são o lugar certo para acompanhar cada passo do processo e aprender como tudo é feito.

Você trabalha na Folha de São Paulo. Quais suas impressões sobre a vida na redação?

É complicada, mas é o que eu gosto de fazer. Trabalha-se demais, ganha-se de menos e todas essas coisas, mas tudo na vida tem um preço. Nesse momento, sou uma babona que sai do jornal todo dia no mínimo às 21h, frequentemente depois das 23h e sempre fica feliz em ver o jornal ser impresso naquela gráfica que fica aqui embaixo da redação e que a gente vê funcionando quando sai muito tarde. 

Seu trabalho de inicialização cientifica é sobre J.D. Salinger.  Qual foi seu critério para a escolha do escritor americano?

Para conseguir retirar algo menos senso comum ou totalmente esquizofrenico de um autor você precisa ter lido tudo dele, tudo e muitas vezes, com atenção, sem atenção, por prazer, por obrigação. Pelo menos eu só sei fazer assim. Salinger, no caso, é o único autor que eu já li tudo (todos os poucos livros, todos os contos publicados em revistas, todas as poucas entrevistas etc) e que consigo ler no original, já que o segundo autor que eu li inteiro (inteiro do que foi publicado em português, pelo menos) é Milan Kundera e eu não leio nem em francês nem em tcheco. 

Além disso, Salinger quase não foi estudado no Brasil. Tenho um amigo que está fazendo mestrado sobre ele agora mesmo, lá na USP. Assim como eu, ele tentou fazer um levantamento de todo mundo que já escreveu sobre Salinger aqui no Brasil, academicamente. Tem menos de dez nêgos. É saudável escrever sobre um autor pouco estudado. Quer dizer, sou uma bostinha de uma aluna de graduação, mas no dia em que houver um seminário imaginário sobre Salinger no Brasil eu serei alguém na fita. 

Além de J.D. Salinger, quais autores você aprecia? Gostaria de escrever ficção algum dia? 

Milan Kundera, Kazuo Ishiguro, Kafka, Machado de Assis, tenho tara pelos gregos, pego todas as minhas optativas no grego: Homero, Tucídides. É meio tipos de pedante gostar dos gregos, mas, fazer o que. 

Em geral sou uma pessoa normal que sabe que os seres humanos têm sonhos diferentes na vida, mas algumas vezes penso que todo mundo queria escrever ficção e que o sujeito precisa ser muito mentiroso para negar isso. Seria como dizer que eu não quero ser rockstar. Todo mundo quer ser rockstar. Eu não consigo diferenciar um baixo de uma guitarra, mas fico no metrô viajando que eu bem que podia ter conhecido Win Butler numa espelunca qualquer e soprei “The Suburbs” pra ele. 

Quando começou seu interesse por fotografia? 

2006, acho. Acho que todo mundo hoje tem “um interesse por fotografia” porque a fotografia nos ajuda a ficcionalizar o mundo a nós mesmos. Hoje todo mundo quer se ver através de um filtro do Instagram porque a realidade, na moral, é meia boca. Vejo isso como uma coisa boa. Dentro de mim sempre tem uma Blanche Dubois berrando “I want magic”.

O único problema real da nossa geração, na minha opinião, é a obsessão por uma platéia. Hoje até o cara que não está no Facebook sonha em ser parado na rua para dar uma longa explanação em rede nacional sobre não estar no Facebook. 

A nossa geração é acusada de ser preguiçosa devido as facilidades que temos a disposição.  O que acha dessa afirmação?

Acho a preguiça uma coisa boa, é uma reação do nosso corpo a esse mundo que parece cheio de possibilidades. Quem tem preguiça desconfia que as coisas, no final, não valham tanto a pena quanto parecem valer. Essas pessoas geralmente estão certas. O nosso problema é viver entre a preguiça e a cobrança de que temos que ser cada vez mais bem sucedidos para mostrar para sei lá quem. 

Hoje é difícil encontrar um ser humano satisfeito. A pessoa não é gorda, mas sente culpa por não fazer exercícios. Não é burra nem desempregada, mas sente culpa por não fazer MBA. Daí as pessoas, essas loucas do cu, acham que nosso problema é a preguiça, quando nosso real problema é a culpa. 

Os mais velhos (pais, chefes, todo tipo de mala) ficam com esse discurso de “olha, na minha época era tudo mais difícil. Olha, você pode aprender russo pelo YouTube e assistir aulas de Havard em streaming”. “Assiste você, aprende você, na geração dos seus pais as pessoas morriam bem mais cedo, aproveite seus vinte anos extra”, é o que eu costumo responder.

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Apresentação

Antes de conhecer o trabalho de um artista (seja músico, escritor, pugilista), costumo procurar as entrevistas que concedeu em sua carreira. Você não concorda com tudo que lê, mas acaba saindo com novas impressões sobre determinados assuntos. Ou odiando toda a experiência. Acontece.

Boas entrevistas são ótimos registros. E as ruins também: Já cansei de ler perguntas mal formuladas e o entrevistado se virar muito bem com boas respostas salvando a pele do pobre jornalista desastrado. 

Por gostar do formato, tomei a iniciativa de entrevistar pessoas que acho o trabalho relevante. A maioria está na internet, essa terra de ninguém.

Não espere aqui uma Paris Review da vida, mas saiba que tudo é feito com carinho, ok?

Obrigado

Bruno 

PS: Perdoe o nome desse alegre Tumblr. Na hora parecia uma boa ideia.

Reclamações, sugestões e todo o seu amor mande no email brunojos@gmail.com